Pesquisa investiga a violência contra mulheres em assentamento rural
Estado - Pesquisa - Violência contra mulheres
A constante veiculação de notícias na mídia sobre violência contra mulheres em alguns assentamentos rurais incomodava a pesquisadora Alexandra Lopes da Costa, o que a levou a investigar como é a questão entre o uso de substâncias psicoativas por homens e a relação de violência contra as mulheres nesses locais.
O projeto de pesquisa “O tônico dos Machos: o uso de psicoativos no contexto das masculinidades e a violência de gênero no campo” foi realizado junto ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e contou com apoio financeiro da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia (Fundect), por meio do edital de bolsas de mestrado.
O local escolhido para a pesquisa foi o assentamento de reforma agrária Bebedouro, localizado na zona rural do município de Nova Alvorada do Sul, no interior do Mato Grosso do Sul. Quanto aos psicoativos de uso mais comuns entre os assentados estavam as substâncias lícitas – cerveja, cachaça, tereré, café, cigarro e fumo de corda.
De acordo com Alexandra, as fontes consultadas também indicaram consumo de drogas ilícitas. No entanto, como o objetivo do trabalho era compreender as relações de gênero no ambiente, no decorrer da pesquisa o foco se desviou mais para o consumo de bebidas alcoólicas, já que a elas ficaram ligadas às práticas de violência contra as mulheres. “Ele é tão bom, mas quando bebe, vira fera”; “ele é trabalhador, ótimo marido, mas o problema é a bebida” – disseram as entrevistadas à pesquisadora.
Durante a condução das entrevistas, algumas mulheres expuseram com franqueza seus enlaces e desenlaces, dramas, ressentimentos, feridas e cicatrizes. “Talvez a insegurança em falar de suas vidas íntimas, por medo de serem descobertas pelo companheiro e violentadas, ou de sofrerem julgamentos, vergonha e constrangimentos pela população assentada, conhecidos e parentes, ou mesmo pela falta de oportunidades para se abrir e conversar sobre o assunto, as levaram a desabar em choro ao confidenciarem a mim suas memórias de dor e sentimentos há tanto tempo silenciados e ocultados”, revelou Alexandra.
A Pesquisa
A zona rural foi escolhida como palco para a pesquisa também por conta do número significativo de assentamentos em Mato Grosso do Sul com pouco acesso a políticas públicas de gênero, além da escassez de conhecimento pelas mulheres sobre a lei Maria da Penha (n° 11343/06), que trata de coibir a violência doméstica e familiar contra as mulheres, entre outras informações relevantes para conquista e vivência de seus direitos.
Ao longo do trabalho de campo foram entrevistados 20 homens e 29 mulheres, totalizando 49 pessoas. Segundo a pesquisadora, as narrativas são compostas por homens que confirmam o discurso dominante ao justificar os atos de violência cometidos ao uso do álcool, e por histórias de mulheres que reproduzem a visão do marido e relatam seus dramas diante do sofrimento vivido pelos vários tipos de violência – física, sexual, moral, patrimonial e psicológica.
Alexandra explica que as relações de gênero no campo costumam ser mais tradicionais e que no assentamento há um valor moral pejorativo em relação às mulheres que ingerem bebidas alcoólicas. “Diferente do que verificamos na cidade, onde homens e mulheres consomem álcool e frequentam bares, o consumo corriqueiro das bebidas alcoólicas no assentamento é masculino e ocorre nos bares existentes ali, locais praticamente exclusivos da clientela varonil, onde os homens dialogam entre si e exercitam os códigos das masculinidades que são repassados aos adolescentes: quanto mais se bebe e suporta a bebida, mais ‘macho’ se é”, revela.
Apesar disso, a pesquisa mostra que o espaço dos bares não é um lugar de violência, mas de sociabilidade masculina, ao contrário das festas realizadas no assentamento, onde as discussões, brigas e violência são frequentes, devido a acertos de contas por desavenças ou em defesa da honra de suas filhas e esposas.
Motivação no álcool
Na farmacologia, o álcool é considerado uma substância química depressora, com uma breve fase estimulante no início da ingestão, na qual costuma desencadear reações de leve euforia. No entanto, o organismo de cada ser humano é único, bem como sua história de vida, a diferença na fermentação e graduação alcoólica das bebidas, a quantidade de doses, as características emocionais no momento do consumo, e os elementos de ordem cultural, tornando as reações à bebida diferentes.
“É pertinente dizer que não busco negar as consequências do álcool no organismo humano, mas procuro outros caminhos para entender a violência doméstica e familiar contra a mulher em muitos casos nos quais o álcool aparece como vilão. Portanto, contrariando as ideias dominantes que naturalizam a violência masculina sobre as mulheres como resultado do consumo do álcool, o estudo busca evidenciar a complexidade dessa questão e os valores que tornam possível movimentar esse discurso ao analisar as relações entre homens e mulheres no próprio ambiente do assentamento Bebedouro”, esclarece a pesquisadora.
Para ela, ainda, a violência cometida sob efeito da embriaguez também representa um meio para banir a impotência masculina e lhes fornecer uma falsa sensação de poder e domínio da situação diante do mal estar presente no assentamento, da pobreza, do descaso e das dificuldades de sustento da família e sobrevivência na terra.
Com os relatos do cotidiano do assentamento é possível perceber que o consumo do álcool aparece como ingrediente capaz de exaltar a raiva e violência masculina contra as mulheres, além de outros problemas existentes no assentamento, e acaba por abonar o autor da violência pelo ato cometido.
A pesquisa possibilitou compreender os bastidores das relações de poder no assentamento, captando a relação entre o consumo das bebidas alcoólicas por homens e as condutas da violência masculina dirigida às mulheres, entendidas como partes das relações e hierarquias de gênero impregnadas no ambiente e suas possíveis consequências para a vida dessas pessoas, em um espaço distante do centro urbano e longe das políticas públicas de promoção, proteção e garantia de direitos.
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